segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Antimonotomia

Uma gota de tinta que treme na extremidade de sua pena cai marchetando uma página que, sem essa mancha requintada, estaria ameaçada pela monotonia.
GUILLAUME APOLLINAIRE

domingo, 20 de dezembro de 2009

Oásis...


A eternidade...


Ela foi encontrada! Quem? A eternidade.
É o mar misturado Ao sol.

Minha alma imortal, Cumpre a tua jura
Seja o sol estival ou a noite pura.

Pois tu me liberas Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos! Tua voas então...

- Jamais a esperança. Sem movimento.
Ciência e paciência, O suplício é lento.

Que venha a manhã, Com brasas de satã,
O dever É vosso ardor.

Ela foi encontrada! Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.
Arthur Rimbaud


Homenagem ao grande gênio da poesia francesa, que apesar de ter escrito por apenas 04 anos, deixou uma obra densa, e cuja a magia da sua escrita, a intensidade do seu amor e o mistério de seu destino continuarão a exercer sobre nossa sensibilidade um poder exaltante de sonho e de emoção. S

Duas Almas

Ó tu que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
Entra, e, sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
Vives sozinha sempre, e nunca foste amada...
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
E a minha alcova tem a tepidez de um ninho,
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
Se banhem no esplendor nascente da alvorada.
E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
Podes partir de novo, ó nômade formosa!
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

Alceu Wamosy

Poemeu


Amei-te muito antes de te conhecer, amei-te no silêncio da noite, amei-te no amanhecer...
Amei-te na volúpia do olhar, amei-te por imaginar como serias, amei-te pelos sonhos que prometia sonhar...
Amei-te na espera febril, amei-te sem te tocar, amei-te de forma intensa e ardil, amei-te simplesmente por desejar amar...
Um dia chegaste feito brisa, em minha pele vieste tocar, descobri que desde sempre era tua e que só desejava te amar...
Fiz de ti o meu amor, minha vida, meu viver, por ti voltei a crer em preces, me fiz vulcão, me fiz mulher.
Por você enfrento o mundo, brigo, choro não desisto... plageio até o pensador, só que eu amo, logo existo.
S.

Eu amo Moulin Rouge

Fazendo pontes...


Somos a ponte para o sempre, arqueada sobre o mar, buscando aventuras para o nosso prazer, vivendo mistérios, provocando desastres, triunfos, desafios, apostas impossíveis, submetendo-nos a provas e uma vez ou outra, aprendendo o amor.

Sebastian Bach

Esquecer para lembrar



"E o que eu desejo para mim e para você é esquecimento.Coisa estranha de se desejar, parece mais uma maldição – pois quem é tolo de querer perder a memória? Eu mesmo vivo falando sobre a felicidade que mora nas lembranças e até mesmo acho que não está errado dizer que somos o que lembramos. Por isso gosto de contar casos, que é um jeito de fazer amor, dar aos outros pedaços da minha vida que o tempo já matou e enterrou, mas que a maga memória faz ressuscitar. Aquilo que a memória amou fica eterno, disse Adélia Prado, e eu não me canso de repetir. A memória é a presença da eternidade em mim. E é para isso que preciso dos deuses, para que eu nunca esqueça, para que o passado volte sempre…


Recordo as Confissões, de Santo Agostinho. Releio seu maravilhoso capítulo sobre a memória, a meditação mais lúcida e profunda jamais escrita sobre o assunto. Diz ele: Palácio maravilhoso, caverna misteriosa, dentro da memória estão presentes os céus, a terra e o mar… Dentro dela eu me encontro comigo mesmo… É nela que moram os segredos da vida e da morte… E andando pelos seus caminhos, o santo vai à procura do obscuro objeto da nostalgia que faz o seu coração doer, e que beleza alguma é capaz de curar. Ele entra na memória como amante que vai à procura da amada, perdida…


E venho eu e desejo a todos o esquecimento… É que, por vezes, é preciso esquecer para poder lembrar…


Pois a memória, como o próprio santo notou, é o estômago da mente…. Para ali vão as comidas mais variadas, umas saborosas e de digestão fácil, outras amargas e impossíveis de serem digeridas. Quando isso acontece, o corpo se contorce e enjoa, e coisa alguma é capaz de fazê-lo feliz. Até que o próprio corpo se aplica o remédio, vomita, e assim se livra da comida que o fazia sofrer.


Memória, estômago: há nela coisas que precisam ser vomitadas, para que corpo possa de novo se alegrar. Pois o esquecimento é a memória vomitando o que faz o corpo sofrer.


Por isso que Roland Barthes dizia que é preciso esquecer a fim de ficar sábio.


Por isso que Alberto Caeiro dizia que o que ele desejava era desaprender, raspar de sua pele a maneira de sentir que lhe haviam ensinado, para poder, de novo, sentir o gosto bom de si mesmo.


Somos como um navio em que os detritos do mar vão se grudando, em meio ao muito navegar.


De tempos em tempos é preciso que o casco seja raspado, para voltar de novo a deslizar suave pelas águas.


Os detritos da memória depositam-se em nossos olhos, transformam-se numa nuvem leitosa, opaca, catarata, e nos tornamos cegos para o mundo a nossa volta. O mundo inteiro, então, se transforma num monte de detritos.


É preciso esquecer para poder ver com clareza. É preciso esquecer para que os olhos possam ver a beleza.


As Sagradas Escrituras contam a saga da mulher de Ló. Deus permitiu que o casal fugisse das cidades amaldiçoadas de Sodoma e Gomorra sob a condição de que não olhassem para trás, enquanto o fogo do céu as consumia. A mulher não resistiu à curiosidade, olhou para trás, e foi transformada em estátua de sal. Quem fica com os olhos fixados no passado se torna incapaz de ver o presente. E quem não tem olhos para o presente está morto.


Esquecer. Ver com olhos de criança – sem memória.


Mas nem sei por que estou dizendo todas estas coisas para explicar o meu desejo de esquecimento, quando o que eu quero dizer já foi dito por Alberto Caeiro:O essencial é saber ver/ uma aprendizagem de desaprender/ Saber ver sem estar a pensar/Saber ver quando se vê/ Ver com o pasmo essencial que tem uma criança, ao nascer/ Sentir-se nascido a cada momento/ para a eterna novidade do mundo…


É isso que desejo para você e para mim, no início de cada ano: esquecimento. Tomar um banho. Deixar a água correr pelo corpo… Sentir os detritos do passado se despregando, e entrando pelo ralo. Recuperar o corpo sem memória da criança, para ver o mundo como se fosse a primeira vez…"



(Rubem Alves)


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Perto do coração selvagem

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.
Clarice Lispector

Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.
Caio Fernando Abreu